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Plano Individual de Atendimento (PIA): O Que É e Como Funciona no Acolhimento Familiar

Quando uma criança entra no sistema de acolhimento familiar, a equipe técnica elabora um documento chamado PIA. Muitas famílias acolhedoras ouvem esse nome durante a capacitação sem entender exatamente o que é, quem o escreve, ou o que precisam fazer com ele. O PIA não é burocracia: é o documento que define o que vai acontecer com aquela criança durante o período de acolhimento — e a família acolhedora tem papel ativo nele.

O Que é o PIA

O Plano Individual de Atendimento é um documento técnico obrigatório, previsto no Artigo 101 do ECA. É elaborado pela equipe interprofissional do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (SFA) — geralmente composta por assistente social e psicólogo — logo após a inserção da criança na família acolhedora.

O PIA não é um formulário padronizado. Ele é construído a partir de uma avaliação individualizada de cada criança: sua história de vida, o motivo do afastamento familiar, seu estado de saúde e desenvolvimento, suas necessidades específicas e seus vínculos afetivos. O documento estabelece metas concretas para o período de acolhimento e define as responsabilidades de cada ator envolvido — família acolhedora, família biológica, equipe técnica e sistema de justiça.

O Que Consta no PIA

O conteúdo do PIA varia conforme a idade, o histórico e as necessidades de cada criança, mas geralmente inclui:

Diagnóstico inicial: resultado da avaliação multidisciplinar realizada nas primeiras semanas — condição de saúde física e mental, nível de desenvolvimento cognitivo, histórico escolar, situação vacinal, vínculos familiares existentes.

Motivo do afastamento e histórico familiar: documentação das circunstâncias que geraram a medida de acolhimento. Esse item é protegido por sigilo e não é compartilhado integralmente com todos os envolvidos.

Metas e compromissos da família de origem: o que precisa acontecer para que a reintegração familiar seja possível. Pode incluir tratamento de dependência química, participação em programas sociais, resolução de situações de violência doméstica, ou regularização de moradia e renda.

Atividades para o desenvolvimento da criança: rotina de acompanhamento de saúde, continuidade escolar, participação em atividades terapêuticas ou de estimulação, conforme a necessidade identificada.

Previsão de prazos: as metas do PIA são divididas em etapas com prazos definidos, que orientam as reavaliações periódicas (a cada três meses, por determinação da Lei 13.509/2017).

Escuta da criança: o ECA determina que a opinião da criança ou adolescente seja considerada na elaboração do PIA, proporcional à sua maturidade. Um adolescente de 14 anos, por exemplo, tem participação ativa nas decisões sobre seu próprio plano.

Qual é o Papel da Família Acolhedora no PIA

A família acolhedora não elabora o PIA — quem faz isso é a equipe técnica. Mas a família é consultada e tem obrigações decorrentes do documento.

Na prática, a família acolhedora deve:

Participar das reuniões de acompanhamento: a equipe técnica visita a família regularmente e realiza reuniões para avaliar a evolução da criança em relação às metas do PIA. A família deve comparecer e compartilhar suas observações sobre comportamento, saúde e adaptação da criança.

Executar as orientações do plano: se o PIA prevê que a criança faça acompanhamento psicológico duas vezes por semana, é responsabilidade da família levá-la às consultas. Se prevê atividades de estimulação em casa, a família recebe orientações sobre como aplicá-las.

Facilitar as visitas da família de origem: o PIA define a frequência e o formato das visitas da família biológica. A família acolhedora deve contribuir para que essas visitas aconteçam de forma tranquila, sem colocar a criança em conflito de lealdade.

Registrar e relatar alterações: se a criança apresentar mudanças significativas de comportamento, problemas de saúde ou reações relacionadas às visitas da família biológica, a família acolhedora deve comunicar imediatamente à equipe técnica para que o PIA seja ajustado.

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O PIA e as Reavaliações Judiciais

O PIA alimenta as reavaliações que o juiz realiza a cada três meses. A equipe técnica elabora um Relatório Circunstanciado de Acompanhamento baseado nas metas do PIA e apresenta ao magistrado. Com base nesse relatório — e nos relatórios do Ministério Público — o juiz decide se:

  • O acolhimento continua
  • A reintegração familiar é possível e deve ser iniciada de forma gradual
  • O processo de destituição do poder familiar deve ser iniciado, abrindo caminho para adoção

Isso significa que a qualidade do acompanhamento ao PIA tem impacto direto no destino da criança. Uma família acolhedora que documenta bem suas observações, participa das reuniões técnicas e comunica alterações relevantes contribui para que as decisões judiciais sejam tomadas com mais precisão.


Entender o PIA é parte essencial de se preparar para o acolhimento familiar. O Guia de Acolhimento Familiar no Brasil explica o PIA em detalhes, incluindo como ler o documento, o que fazer se você discordar de alguma orientação da equipe técnica e como registrar suas observações de forma que elas sejam levadas a sério nas reavaliações.

Quando o PIA Não Está Funcionando

Em alguns municípios, o PIA existe no papel mas não é revisado com a frequência exigida por lei. Equipes técnicas sobrecarregadas, falta de profissionais qualificados e ausência de recursos para o acompanhamento fazem com que os planos se tornem documentos estáticos.

Se você é família acolhedora e percebe que as reavaliações trimestrais não estão acontecendo, ou que o PIA da criança nunca foi apresentado a você, é seu direito solicitar acesso ao documento e participação nas revisões. O canal correto é a equipe técnica do SFA. Se não houver resposta, o Conselho Tutelar e o Ministério Público podem ser acionados para fiscalizar o cumprimento das obrigações legais.

O PIA não é uma formalidade. É o único instrumento que garante que a criança não ficará em limbo no sistema de acolhimento além do tempo necessário — e que cada semana sob seus cuidados esteja sendo direcionada para um desfecho concreto.

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